Letícia Bezerra
Já aconteceu de você, que construiu uma carreira ou um negócio no Brasil — anos de estudo, uma trajetória da qual se orgulhava, talvez até uma equipe que dependia de você —, se ver hoje num trabalho bem mais operacional do que o que fazia antes, e sentir uma mistura estranha de vergonha e revolta, mesmo sabendo, racionalmente, que "todo trabalho é digno"?
Isso tem explicação, e não é sinal de ingratidão nem de que você não sabe dar valor à oportunidade que teve. O diploma, o cargo, o negócio que você construiu no Brasil não é só uma linha no currículo — é parte de como você se reconhece, do que te dá senso de competência e de lugar no mundo. Quando isso não atravessa a fronteira junto com você — porque o diploma não é reconhecido automaticamente, porque a experiência não "conta" da mesma forma para quem contrata, porque o idioma ainda não permite mostrar tudo que você sabe — não é só o salário que muda. É a base da sua identidade profissional que fica, por um tempo, sem chão.
Para quem chegou como dono(a) do próprio negócio, a perda pode ser ainda mais desorientadora: de decidir os próprios horários e liderar uma equipe, para responder a alguém, seguir regras que não ajudou a criar, e muitas vezes começar de nível bem mais baixo do que o que ocupava. E para quem depende de um processo de revalidação de diploma, a espera em si já cobra um preço — meses, às vezes anos, num limbo entre "quem eu era" e "quem ainda não posso ser aqui de novo", trabalhando nesse meio tempo em algo que usa só uma fração da sua real capacidade.
Na terapia, eu ajudo a separar duas coisas que costumam se misturar nessa fase: o tempo real que esse recomeço vai levar (que tem prazo, mesmo que pareça infinito por dentro) e a narrativa que a pessoa constrói sobre o próprio valor por causa dele — porque é essa segunda parte, mais do que o cargo em si, que costuma doer mais fundo e demorar mais para cicatrizar. O trabalho é te ajudar a continuar se reconhecendo como a pessoa capaz que sempre foi, mesmo num momento em que o mundo ao redor ainda não reflete isso de volta.
Dá para atravessar essa fase de recomeço sem deixar que ela defina quem você é. O primeiro passo é só uma mensagem.
