Letícia Bezerra
Já aconteceu de você notar que, numa reunião de trabalho ou numa conversa qualquer no supermercado, a piada não sai mais no timing certo — ou de simplesmente escolher ficar quieto(a), não porque não tinha o que dizer, mas porque formular aquilo ali, na hora, em outro idioma, parecia pesado demais? E, no fim do dia, mesmo sem ter feito nada fisicamente cansativo, sentir uma exaustão que não faz muito sentido? Talvez, por baixo disso, apareça uma pergunta incômoda: “cadê a pessoa rápida e espirituosa que eu era no Brasil?”
Isso tem explicação, e não é falta de esforço nem sinal de que você “não está se adaptando direito”. Pensar, trabalhar e se relacionar o dia inteiro numa língua que não é a materna exige um esforço cognitivo extra que a maioria das pessoas nunca precisou fazer — cada frase passa por um processamento mental a mais, mesmo quando você já é fluente, e isso consome energia mental o dia inteiro, silenciosamente, antes mesmo de qualquer tarefa “de verdade” começar. Some a isso um efeito real, discutido na psicologia e na linguística: a forma como a gente se expressa numa segunda língua tende a ser mais literal, mais cautelosa, com menos espaço para o humor fino e as nuances que fazem parte da nossa personalidade no idioma nativo. Não é que você ficou menos inteligente ou menos engraçado(a) — é que a ferramenta que está sendo usada para se expressar tem, por enquanto, menos recursos do que a que você domina de verdade.
O problema é que essa sensação, repetida todo santo dia, pode corroer algo que vai além do cansaço: mexe com autoestima, com a sensação de impostor (“será que percebem que eu não sou assim tão competente nesse idioma?”), e às vezes leva a evitar situações sociais só para não passar por aquilo de novo — o que, com o tempo, pode alimentar isolamento. Na terapia, eu trabalho essa questão por dois lados: o cansaço cognitivo em si (reconhecer os limites reais da energia mental e não se cobrar como se fosse preguiça) e a parte da autoestima e da identidade que fica abalada quando você não se reconhece na própria voz. Você não perdeu quem é — só está usando, por ora, um instrumento ainda em construção para expressar isso.
Dá para reencontrar mais leveza nessa parte do dia a dia, sem esperar “ficar fluente o suficiente” para se sentir você de novo. O primeiro passo é só uma mensagem.
