Letícia Bezerra
Já aconteceu de uma tarefa que no Brasil você resolveria em cinco minutos — marcar uma consulta médica, abrir uma conta, entender um formulário — virar, aqui, uma missão de duas horas, te deixando esgotado(a) por algo que deveria ser simples? E, junto disso, uma sensação estranha de estar “virando criança de novo”, tendo que reaprender o básico da vida adulta?
Essa sensação é mais comum do que parece, e raramente alguém fala dela em voz alta — talvez porque pareça pequena demais para “merecer” ser um problema, ou porque contraria a imagem de conquista que se espera de quem migrou. Mas o efeito acumulado dela não é pequeno: toda vez que uma tarefa simples exige um esforço desproporcional, isso manda um sinal (equivocado, mas persistente) para a autoestima — como se a competência tivesse regredido, quando na verdade só o cenário mudou. Nada foi perdido; só o mapa automático que dizia como fazer as coisas sem pensar ficou, temporariamente, para trás.
Para algumas pessoas, isso ainda vem acompanhado de outra camada: precisar recomeçar profissionalmente, esperar a revalidação de um diploma, ou depender financeiramente de alguém enquanto isso não se resolve — quando é o caso, isso intensifica ainda mais essa sensação de estar “voltando à estaca zero”, mesmo levando toda a bagagem e experiência já construída. Não é regra para todo mundo que migra, mas, quando acontece, pesa bastante na forma como a pessoa se vê.
Na terapia, eu ajudo a separar duas coisas que costumam se misturar nessa fase: o que é só o custo temporário e esperado de aprender um sistema novo (que tende a diminuir, com tempo e repetição) e o que é a narrativa interna que se constrói sobre si mesmo(a) por causa disso — porque é essa narrativa, mais do que as tarefas em si, que costuma machucar mais fundo. Reconstruir a autoconfiança aqui não é sobre “aguentar firme” sozinho(a); é sobre entender o que está acontecendo de verdade.
Dá para atravessar essa fase sem carregar o peso extra de se sentir incapaz por algo que é, na real, só o preço temporário de aprender um lugar novo. O primeiro passo é só uma mensagem.
