Letícia Bezerra
Já aconteceu de você estar rolando o Instagram antes de dormir, ver a foto de alguém também morando fora — sorrindo numa praia, com a legenda “vivendo o sonho” — fechar o aplicativo, olhar para a pia com louça acumulada e o silêncio do apartamento, e sentir uma pontada de culpa por não estar sentindo a mesma coisa? Afinal, você também escolheu isso. Você também teve a “sorte” de morar fora. Então por que, às vezes, dói tanto?
Existe um nome técnico para essa sensação, cunhado por um pesquisador espanhol que estudou de perto o impacto emocional de migrar: luto migratório. E a palavra “luto” não é exagero — é, em boa parte, isso mesmo. Só que, diferente do luto que a gente reconhece de cara (a perda de alguém), esse é um luto sem funeral, sem ninguém perguntando “como você está”, sem licença do trabalho para chorar. Um luto que, por fora, parece que deveria estar sendo comemorado.
Porque, na prática, morar fora significa perder várias coisas ao mesmo tempo, mesmo quando se ganha outras: a língua em que os pensamentos vêm mais fácil, a paisagem que era o cenário automático da sua vida, a rede de gente que te conhecia desde sempre, o status profissional construído ao longo de anos, o corpo que sabia se mover naquele lugar sem pensar. Nenhuma dessas perdas aparece na foto bonita do feed. E é por isso que tanta gente nessa situação se sente sozinha duas vezes: sozinha na mudança, e sozinha em não conseguir nomear por que a mudança dói, mesmo tendo sido a escolha certa.
Se alguma parte disso soa familiar — a culpa por não estar “aproveitando” o suficiente, a saudade que aperta em horas aleatórias, a dúvida sobre se valeu a pena, mesmo sabendo que sim — vale saber que isso tem explicação, tem nome, e principalmente: tem trabalho possível de ser feito. Na terapia, eu ajudo a separar o que é o processo natural de adaptação (que tende a se transformar, com tempo e com as ferramentas certas) do que pode estar mascarando outra coisa, e a construir um jeito de viver essa fase sem se cobrar por sentir o que está sentindo. Essa também é uma vivência que já atravessei, na prática — reconstruir a vida fora do Brasil não é só logística, é reconstruir um chão emocional inteiro, e eu entendo isso de dentro, não só como teoria.
Dá para atravessar esse período de um jeito mais leve, sem esperar que ele simplesmente passe sozinho. O primeiro passo é só uma mensagem.
